Com representação de mulheres indígenas, quilombolas e ribeirinhas, a obra de mais de 11 metros utiliza tintas desenvolvidas com lama do rio Tocantins, cinzas da floresta Amazônica e minerais da Índia.
RIO DE JANEIRO (RJ) — Um grande mural representando os rios da Amazônia com os rostos de uma mulher indígena Munduruku, uma mulher quilombola, e uma mulher ribeirinha, será inaugurado na próxima segunda-feira (31), às 16h, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro (RJ). A obra é resultado de uma articulação da Aliança Chega de Soja – rede de movimentos e comunidades que lutam contra o avanço do agronegócio na Amazônia e no Cerrado – com a Fearless Foundation for the Arts, coletivo fundado pela artista indiana Shilo Shiv Suleman, que já produziu mais de 100 murais em 20 países.
A intervenção integra o projeto Confluence, que usa o encontro das águas como forma de aproximação de povos e experiências do Sul Global. No Brasil, o processo tem reunido comunidades das bacias dos rios Tocantins, Tapajós e Madeira, além de diversos movimentos sociais e organizações da sociedade civil. No início do mês, na Vila Tauiry, no sudoeste do Pará, as artistas produziram um primeiro mural dedicado ao Pedral do Lourenção – formação rochosa do rio Tocantins ameaçada pelo projeto de hidrovia que visa aumentar o escoamento de soja para exportação.
“À medida que conhecemos o coração do rio Tocantins, na vila Tauiry, no Pará, com a comunidade cujas rochas e águas fazem parte do seu ecossistema, o que se tornou evidente foi o seguinte: não há separação entre os corpos das mulheres e as águas que defendemos. Neste momento, na Índia, as mulheres têm-se mantido submersas como parte do movimento de protesto Ken-Betwa. Inspirando-nos nesta imagem de solidariedade entre mulheres de todo o mundo — a luta comum contra a exploração e a extração, tanto do corpo como da terra —, pintamos esta imagem como um testemunho dos movimentos liderados por mulheres em defesa das águas sagradas em toda a maioria global”, descreve Shilo Shiv Suleman, fundadora da Fearless Foundation for the Arts.
O mural no Catete ajuda a impulsionar a campanha “Nossos Territórios Nossas Vidas” da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) por um projeto de país que escute os territórios. Lançado no contexto eleitoral, a proposta defende a demarcação das Terras Indígenas, participação popular, uma economia comprometida com a vida, e a união entre povos indígenas, quilombolas, movimentos do campo e da cidade .
“Quando falamos que nosso território é nossa vida, estamos falando da nossa comida, da nossa água, da nossa memória e do futuro dos nossos filhos. Levar essa mensagem para um muro no Rio de Janeiro é também mostrar que a proteção dos territórios não interessa somente aos povos que vivem neles, mas também diz respeito ao futuro de todos nós”, afirma Lilian Eloy, da APIB.