15/ago/2019
No final da tarde da terça-feira (13), após a Primeira Marcha das Mulheres Indígenas, mais de 100 representantes estaduais se reuniram na Câmara dos Deputados para a realização do seminário “Mulheres indígenas e direitos sociais”. Quem conduziu a atividade foi a co-deputada em São Paulo Chirley Pankará junto de outras lideranças.
Confira alguns destaques:
Pedagoga e doutoranda em antropologia pela USP, Chirley falou sobre a importância de ocupar os espaços políticos e da representatividade dentro das casas parlamentares. Sua fala foi complementada pela de Célia Xakriabá, também pedagoga e doutoranda em antropologia pela UFMG, que reafirmou a importância da presença de mulheres indígenas na política.
“Não basta lutar pela causa indígena, é preciso levar o corpo das mulheres à política. É necessário reconhecer as narradoras, as conhecedoras”, disse Célia.

Henry Mähler-Nakashima
Poucas horas depois da marcha inédita, Célia ressaltou o importante papel das mulheres nos trabalhos de base em aldeias e cidades, além de apontar para a crise de representação que sistemas políticos atuais apresentam e que levam ao descrédito frente à sociedade.
“As mulheres marcham todos os dias em suas aldeias. Quem tem território tem o quê? Tem onde voltar, tem colo, tem cura. E por isso a sociedade brasileira está doente: perdeu a capacidade de se reconectar. Do Brasil nós somos primeiros. Nós representamos ciência, conhecimento e movimento de cura”.
Quem a seguiu foi Evanilda Terena, educadora e liderança indígena do Mato Grosso do Sul, que manifestou seu completo repúdio ao ataque promovido pela Polícia Militar de seu estado contra o povo Kinikinawa, incluindo crianças e idosas, que os removeu sem ordem judicial de seu território.
“Essa comunidade vai existir e resistir até o último indígena. Se um cair, levantam mil. Não vamos parar por aqui. O povo indígena não vive sem território, o cuidado com a natureza é como se fosse com o próprio corpo”.
Os direitos indígenas vêm sendo alvo de diversos ataques no atual governo. As declarações de ódio do presidente eleito motivam ações violentas como as que ocorreu com os Kinikawa e os Wajãpi, que tiveram uma liderança assassinada. O cenário de constantes ameaças nunca mudou para as populações originárias, mas cresceu muito este ano.
“Não é fácil para quem vive na base, na luta contra os fazendeiros, madeireiros, garimpeiros… Não temos medo, os enfrentamos há muito tempo e não vai ser agora que vão nos amedrontar. Vou ser alguém para defender meu povo, meu rio, minha floresta e meu território. Jamais vou deixar destruírem o meu futuro, dos meus filhos e dos meus netos”, disse Alessandra Korap Munduruku, graduanda em direito na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e liderança na região do Médio Tapajós.

Foto: Henry Mähler-Nakashima / Cobertura Colaborativa
O evento teve apoio da Bancada Ativista e contou com a presença das deputadas Andreia de Jesus (PSOL), Áurea Carolina (PSOL), Fernanda Melchionna (PSOL), Sâmia Bomfim (PSOL) e Maria do Rosário (PT). Todas reforçaram os aprendizados que tem com as mulheres indígenas e os ensinamentos que os povos originários têm a oferecer ao povo brasileiro, como a defesa da Mãe Terra.
“Precisamos nos unir mais, deixar as diferenças de lado, independentes de preferência partidária. Quando nos encontramos com mulheres brancas e negras nos empoderamos ainda mais, porque a luta é uma só. Espero que essas parlamentares possam se unir cada vez mais olhando para os direitos das mulheres indígenas”, disse Telma Taurepang, secretária do Movimento de Mulheres Indígenas de Roraima e ex-candidata a senadora.

Foto: Henry Mähler-Nakashima / Cobertura Colaborativa
A relação natural dos indígenas com o desenvolvimento sustentável e a preservação do meio-ambiente é um dos principais motivos pelos quais o aquecimento global e outros fenômenos agressivos ao equilíbrio dos biomas vem sendo contidos em todo o mundo. O governo brasileiro se equivoca quando não reconhece este papel dos guardiões da floresta.
“As raízes estão nos povos originários. O mundo tem uma dívida histórica com os povos originários, o mundo só respira porque existe um pulmão protegido pelos povos originários. Estamos aqui para dizer que esse governo passará, mas nós continuaremos aqui lutando, batalhando e conquistando, porque nós mulheres estamos nascendo”, disse Kerexu Yxapyry, liderança Guarani do Morro dos Cavalos.

Foto: Henry Mähler-Nakashima / Cobertura Colaborativa
A pauta ambiental, entretanto, não é a única pelo qual os povos estão dispostos a lutar e reivindicar. A ocupação da Secretaria de Saúde Indígena na segunda-feira (12) demonstrou a força das mulheres que reivindicam melhoras em um sistema que, além de ineficiente, é pouco representativo em relação às medicinas tradicionais.
“Estamos aqui para lutar por demarcação, educação e saúde de qualidade. Saúde que atenda as nossas cidades, que garanta aos nossos pajés, benzedeiras e parteiras de nos acompanhar. Já temos nossas curas através de nossas plantas medicinais. Estão tirando nosso território e nossas curas”, disse Juliana Tupinambá, educadora na Bahia.

Foto: Henry Mähler-Nakashima / Cobertura Colaborativa
Finalmente, a primeira deputada federal indígena na história do Brasil encerrou o seminário. Joênia Wapichana aproveitou o espaço para alertar sobre o perigo da PEC 187, que será votada na semana que vem e que vai contra o artigo 231 da constituição, abrindo terras indígenas para arrendamento. A deputada integra a Comissão de Constituição de Justiça e de Cidadania que avalia a proposta de emenda à constituição.
Integrante da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, Joênia ressaltou a extrema necessidade de haver mais mulheres no Congresso e da importância de se levar valores indígenas para a política brasileira.
“Os povos indígenas discutem tudo coletivamente, devemos compartilhar trabalho, resultados e desafios… Temos aspirações, sonhos e muito trabalho pela frente. Que isso seja o exemplo, mas que não pare aqui. Posso ser a primeira deputada indígena no Congresso Nacional, mas não quero ser a única, nem a última”.

Foto: Henry Mähler-Nakashima / Cobertura Colaborativa
15/ago/2019
Por Lia Bianchini para Cobertura Colaborativa da Marcha das Mulheres Indígenas

Foto: Lia Bianchini
“A terra é feminina e é quem dá todos os frutos: água, minério, alimento, árvores, animais. Essa terra que germina, que gera tudo isso, nós somos essa terra”. A frase é de Cristiane Julião, do povo Pankararu, de Pernambuco. E é assim que ela explica o que move as mulheres indígenas a buscarem o fortalecimento de suas habilidades políticas nos espaços de poder de seus povos.
O empoderamento das mulheres indígenas está inserido em uma visão de mundo coletiva e cíclica, em que mulheres, homens e natureza coexistem em prol do bem estar comum desta e das próximas gerações. Não por acaso, o lema da I Marcha das Mulheres Indígenas, que acontece em Brasília, entre os dia 9 e 14 de agosto, é “território: nosso corpo, nosso espírito”.
A defesa de seus territórios é o sentido maior da luta das mulheres indígenas. “Nós somos terra 24 horas por dia. Meu corpo é terra e o que corre dentro das minhas veias é água. Nós estamos preocupadas, porque a essência da terra está se perdendo, então meu povo está correndo grande risco de desaparecer”, diz Shirley Krenak, cujo povo – Krenak, do leste de Minas Gerais – vive em um território castigado pela lama do rompimento da barragem de rejeitos do Fundão, desde 2015.
Para Shirley, a auto-organização das mulheres indígenas e a I Marcha das Mulheres Indígenas são um “chamado da terra”. “A terra é mãe, a terra é uma mulher. E uma mulher entende a outra. Então, esse momento agora é pra isso: chamar as pessoas a entenderem que nós temos a essência da vida, porque nós trabalhamos para você respirar, pra você beber água, pra você se alimentar bem. As pessoas precisam entender o quanto nós somos importantes aqui, principalmente nós, mulheres indígenas”, afirma Shirley.
Cultura do homem branco
A cosmovisão indígena, no entanto, foi atravessada pela colonização, que fez se espalhar pelos povos indígenas a ideia capitalista do patriarcado, da superioridade masculina.
O machismo nos povos indígenas foi trazido com a colonização.
“O Estado trouxe a ideia de cacique homem, pajé homem, polícia indígena homem, deu funções aos nossos indígenas homens para que as mulheres ficassem em casa, vulneráveis. O homem era o guerreiro, forte. Foi se normatizando essa ideia de que o homem tem a resistência física. Só que não é bem assim. Tem muitas mulheres que a história não conta. Mas nós estamos lá”, explica Cristiane Julião.
No dia-a-dia das aldeias, as mulheres indígenas têm de enfrentar essa ideia de subalternidade e vulnerabilidade. Segundo conta Mukani Shanenawa, a cacique da aldeia Feijó, localizada no estado do Acre, ainda existe, entre os homens, a prática de desvalorizar e desmotivar o poder de fala das mulheres em espaços de deliberações e debates.
“Há muito tempo nós somos muito desvalorizadas. Não são todos, mas alguns homens querem deixar a gente muito pra baixo, nos desmotivam, não dão oportunidade de falar em uma reunião, participar de palestra. A gente não tem que ser aquela mulher só de ter voto, mas também de ter voz em qualquer instituição, em qualquer lugar que seja, temos que ser mulheres fortes, e continuar sendo guerreiras”, afirma.
Mukani lidera uma aldeia composta em 90% por mulheres. Ela explica que a liderança passa de geração para geração e participar da I Marcha das Mulheres Indígenas, no seu entendimento, ajudará a fortalecer a cultura do empoderamento das mulheres nos povos presentes na Marcha.
“A busca pelo nosso empoderamento feminino é infinita. Eu posso sair daqui e levar pra minha comunidade algo que eu ainda não sabia, mas que vai se fortalecer dentro da minha cultura, dentro da minha aldeia. Do mesmo jeito será com as outras parentas que estão aqui”, diz.
15/ago/2019
Brasília – DF, 09 a 14 de agosto 2019
Se fere a nossa existência, seremos resistência
Nós, 2.500 mulheres de mais de 130 diferentes povos indígenas, representando todas as regiões do Brasil, reunidas em Brasília (DF), no período de 10 a 14 de agosto de 2019, concebemos coletivamente esse grande encontro marcado pela realização do nosso 1o Fórum e 1a Marcha das Mulheres Indígenas, queremos dizer ao mundo que estamos em permanente processo de luta em defesa do “Território: nosso corpo, nosso espírito”. E para que nossas vozes ecoem em todo o mundo, reafirmamos nossas manifestações.
Enquanto mulheres, lideranças e guerreiras, geradoras e protetoras da vida, iremos nos posicionar e lutar contra as questões e as violações que afrontam nossos corpos, nossos espíritos, nossos territórios. Difundindo nossas sementes, nossos rituais, nossa língua, nós iremos garantir a nossa existência.
A Marcha das Mulheres Indígenas foi pensada como um processo, iniciado em 2015, de formação e empoderamento das mulheres indígenas. Ao longo desses anos dialogamos com mulheres de diversos movimentos e nos demos conta de que nosso movimento possui uma especificidade que gostaríamos que fosse compreendida. O movimento produzido por nossa dança de luta, considera a necessidade do retorno à complementaridade entre o feminino e o masculino, sem, no entanto, conferir uma essência para o homem e para a mulher. O machismo é mais uma epidemia trazida pelos europeus. Assim, o que é considerado violência pelas mulheres não indígenas pode não ser considerado violência por nós. Isso não significa que fecharemos nossos olhos para as violências que reconhecemos que acontecem em nossas aldeias, mas sim que precisamos levar em consideração e o intuito é exatamente contrapor, problematizar e trazer reflexões críticas a respeito de práticas cotidianas e formas de organização política contemporâneas entre nós. Precisamos dialogar e fortalecer a potência das mulheres indígenas, retomando nossos valores e memórias matriarcais para podermos avançar nos nossos pleitos sociais relacionados aos nossos territórios.
Somos totalmente contrárias às narrativas, aos propósitos, e aos atos do atual governo, que vem deixando explícita sua intenção de extermínio dos povos indígenas, visando à invasão e exploração genocida dos nossos territórios pelo capital. Essa forma de governar é como arrancar uma árvore da terra, deixando suas raízes expostas até que tudo seque. Nós estamos fincadas na terra, pois é nela que buscamos nossos ancestrais e por ela que alimentamos nossa vida. Por isso, o território para nós não é um bem que pode ser vendido, trocado, explorado. O território é nossa própria vida, nosso corpo, nosso espírito.
Lutar pelos direitos de nossos territórios é lutar pelo nosso direito à vida. A vida e o território são a mesma coisa, pois a terra nos dá nosso alimento, nossa medicina tradicional, nossa saúde e nossa dignidade. Perder o território é perder nossa mãe. Quem tem território, tem mãe, tem colo. E quem tem colo tem cura.
Quando cuidamos de nossos territórios, o que naturalmente já é parte de nossa cultura, estamos garantindo o bem de todo o planeta, pois cuidamos das florestas, do ar, das águas, dos solos. A maior parte da biodiversidade do mundo está sob os cuidados dos povos indígenas e, assim, contribuímos para sustentar a vida na Terra.
A liberdade de expressão em nossas línguas próprias, é também fundamental para nós. Muitas de nossas línguas seguem vivas. Resistiram às violências coloniais que nos obrigaram ao uso da língua estrangeira, e ao apagamento de nossas formas próprias de expressar nossas vivências. Nós mulheres temos um papel significativo na transmissão da força dos nossos saberes ancestrais por meio da transmissão da língua.
Queremos respeitado o nosso modo diferenciado de ver, de sentir, de ser e de viver o território. Saibam que, para nós, a perda do território é falta de afeto, trazendo tristeza profunda, atingindo nosso espírito. O sentimento da violação do território é como o de uma mãe que perde seu filho. É desperdício de vida. É perda do respeito e da cultura, é uma desonra aos nossos ancestrais, que foram responsáveis pela criação de tudo. É desrespeito aos que morreram pela terra. É a perda do sagrado e do sentido da vida.
Assim, tudo o que tem sido defendido e realizado pelo atual governo contraria frontalmente essa forma de proteção e cuidado com a Mãe Terra, aniquilando os direitos que, com muita luta, nós conquistamos. A não demarcação de terras indígenas, o incentivo à liberação da mineração e do arrendamento, a tentativa de flexibilização do licenciamento ambiental, o financiamento do armamento no campo, os desmontes das políticas indigenista e ambiental, demonstram isso.
Nosso dever como mulheres indígenas e como lideranças, é fortalecer e valorizar nosso conhecimento tradicional, garantir os nossos saberes, ancestralidades e cultura, conhecendo e defendendo nosso direito, honrando a memória das que vieram antes de nós. É saber lutar da nossa forma para potencializar a prática de nossa espiritualidade, e afastar tudo o que atenta contra as nossas existências.
Por tudo isso, e a partir das redes que tecemos nesse encontro, nós dizemos ao mundo que iremos lutar incansavelmente para:
1. Garantir a demarcação das terras indígenas, pois violar nossa mãe terra é violentar nosso próprio corpo e nossa vida;
2. Assegurar nosso direito à posse plena de nossos territórios, defendendo-os e exigindo do estado brasileiro que proíba a exploração mineratória, que nos envenena com mercúrio e outras substâncias tóxicas, o arrendamento e a cobiça do agronegócio e as invasões ilegais que roubam os nossos recursos naturais e os utilizam apenas para gerar lucro, sem se preocupar com a manutenção da vida no planeta;
3. Garantir o direito irrestrito ao atendimento diferenciado à saúde a nossos povos, com a manutenção e a qualificação do Subsistema e da Secretaria Especial Saúde Indígena (SESAI). Lutamos e seguiremos lutando pelos serviços públicos oferecidos pelo SUS e pela manutenção e qualificação contínua da Política Nacional de Atendimento à Saúde a nossos povos, seja
em nossos territórios, ou em contextos urbanos.
Não aceitamos a privatização, a municipalização ou estadualização do atendimento à saúde dos nossos povos.
Lutamos e lutaremos para que a gestão da SESAI seja exercida por profissionais que reúnam qualificações técnicas e políticas que passem pela compreensão das especificidades envolvidas na prestação dos serviços de saúde aos povos indígenas. Não basta termos uma indígena à frente do órgão. É preciso garantirmos uma gestão sensível a todas as questões que nos são caras no âmbito desse tema, respeitando nossas práticas tradicionais de promoção à saúde, nossas medicinas tradicionais, nossas parteiras e modos de realização de partos naturais, e os saberes de nossas lideranças espirituais. Conforme nossas ciências indígenas, a saúde não provém da somente da prescrição de princípios ativos, e a cura é resultado de interações subjetivas, emocionais, culturais, e fundamentalmente espirituais.
4. Reivindicar ao Supremo Tribunal Federal (STF), que não permita, nem legitime nenhuma reinterpretação retrógrada e restritiva do direito originário às nossas terras tradicionais. Esperamos que, no julgamento do Recurso Extraordinário 1.017.365, relacionado ao caso da Terra Indígena Ibirama Laklanõ, do povo Xokleng, considerado de Repercussão Geral, o STF reafirme a interpretação da Constituição brasileira de acordo com a tese do Indigenato (Direito Originário) e que exclua, em definitivo, qualquer possibilidade de acolhida da tese do Fato Indígena (Marco Temporal);
5. Exigir que todo o Poder Judiciário que, no âmbito da igualdade de todos perante a lei, faça valer nosso direito à diferença e, portanto, o nosso direito de acesso à justiça. Garantir uma sociedade justa e democrática significa assegurar o direito à diversidade, também previsto na Constituição. Exigimos o respeito aos tratados internacionais assinados pelo Brasil, que incluem, entre outros, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as Convenções da Diversidade Cultural, Biológica e do Clima, a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Declaração Americana dos Direitos dos Povos Indígenas;
6. Promover o aumento da representatividade das mulheres indígenas nos espaços políticos, dentro e fora das aldeias, e em todos os ambientes que sejam importantes para a implementação dos nossos direitos. Não basta reconhecer nossas narrativas é preciso reconhecer nossas narradoras. Nossos corpos e nossos espíritos têm que estar presentes nos espaços de decisão;
7. Combater a discriminação dos indígenas nos espaços de decisão, especialmente das mulheres, que são vítimas não apenas do racismo, mas também do machismo;
8. Defender o direito de todos os seres humanos a uma alimentação saudável, sem agrotóxicos, e nutrida pelo espírito da mãe terra;
9. Assegurar o direito a uma educação diferenciada para nossas crianças e jovens, que seja de qualidade e que respeite nossas línguas e valorize nossas tradições. Exigimos a implementação das 25 propostas da segunda Conferência Nacional e dos territórios etnoeducacionais, a recomposição das condições e espaços institucionais, a exemplo da Coordenação Geral de Educação Escolar Indígena na estrutura administrativa do Ministério da Educação para assegurar a nossa incidência na formulação da política de educação escolar indígena e no atendimento das nossas demandas que envolvem, por exemplo, a melhoria da infraestrutura das escolas indígenas, a formação e contratação dos professores indígenas, a elaboração de material didático diferenciado;
10. Garantir uma política pública indigenista que contribua efetivamente para a promoção, o fomento, e a garantia de nossos direitos, que planeje, implemente e monitore de forma participativa, dialogada com nossas organizações, ações que considerem nossas diversidades e as pautas prioritárias do Movimento Indígena;
11. Reafirmar a necessidade de uma legislação específica que combata a violência contra a mulher indígena, culturalmente orientada à realidade dos nossos povos. As políticas públicas precisam ser pautadas nas especificidades, diversidades, e contexto social de cada povo, respeitando nossos conceitos de família, educação, fases da vida, trabalho e pobreza.
12. Dar prosseguimento ao empoderamento das mulheres indígenas por meio da informação, formação e sensibilização dos nossos direitos, garantindo o pleno acesso das mulheres indígenas à educação formal (ensino básico, médio, universitário) de modo a promover e valorizar também os conhecimentos indígenas das mulheres;
13. Fortalecer o movimento indígena, agregando conhecimentos de gênero e geracionais;
14. Combater de forma irredutível e inegociável, posicionamentos racistas e anti-indígenas. Exigimos o fim da violência, da criminalização e discriminação contra os nossos povos e lideranças, praticadas inclusive por agentes públicos, assegurando a punição dos responsáveis, a reparação dos danos causados e comprometimento das instâncias de governo na proteção das nossas vidas.
Por fim, reafirmamos o nosso compromisso de fortalecer as alianças com mulheres de todos os setores da sociedade no Brasil e no mundo, do campo e da cidade, da floresta e das águas, que também são atacadas em seus direitos e formas de existência.
Temos a responsabilidade de plantar, transmitir, transcender, e compartilhar nossos conhecimentos, assim como fizeram nossas ancestrais, e todos os que nos antecederam, contribuindo para que fortaleçamos, juntas e em pé de igualdade com os homens, que por nós foram gerados, nosso poder de luta, de decisão, de representação, e de cuidado para com nossos territórios.
Somos responsáveis pela fecundação e pela manutenção de nosso solo sagrado. Seremos sempre guerreiras em defesa da existência de nossos povos e da Mãe Terra.
Brasília (DF), 14 de agosto de 2019.