No contexto do 22º Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, sob o lema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), em conjunto com suas 7 (sete) organizações regionais de base, realizou, no dia 08 de abril de 2026, uma reunião de recepção com embaixadas, organismos internacionais e representantes do Estado brasileiro, reafirmando a importância do diálogo internacional diante do agravamento da crise climática, da violência e da ofensiva permanente contra os direitos dos povos indígenas no Brasil.
Participaram da reunião representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH/ONU), da Delegação da União Europeia no Brasil, das Embaixadas da Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Noruega, Polônia, Romênia, Suécia, Suíça, Países Baixos, Portugal, Peru e Reino Unido, além de representantes do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e do Ministério dos Povos Indígenas (MPI).
Durante o encontro, a APIB reafirmou que os territórios indígenas seguem no centro de uma disputa política, econômica e climática. O avanço do Marco Temporal, da flexibilização do licenciamento ambiental, da exploração mineral, da abertura de novas frentes de petróleo e gás, da expansão do agronegócio e de empreendimentos sobre os territórios indígenas compõem uma agenda de violência e morte que ameaça povos, biomas e a própria democracia.
As lideranças indígenas denunciaram que, ao mesmo tempo em que o Brasil busca afirmar internacionalmente uma liderança climática, a estrutura do Estado segue cedendo à pressão de interesses econômicos e empresariais que aprofundam a espoliação territorial. A APIB reiterou sua posição contrária a qualquer financiamento, investimento ou acordo comercial que gere impactos sobre os povos indígenas e seus territórios, especialmente no âmbito do Acordo Mercosul-União Europeia, do Regulamento Europeu Anti-Desmatamento (EUDR), da mineração, das grandes obras de infraestrutura e da exploração de combustíveis fósseis.
Também foram denunciados casos emblemáticos relacionados à mineradora canadense Belo Sun, à Ferrogrão, ao rompimento da barragem de Fundão (MG), aos impactos da Vale no território Tupinikim e Guarani e à contaminação provocada pelo agronegócio e pelo uso intensivo de agrotóxicos sobre os territórios indígenas, especialmente entre os povos Guarani e Kaiowá. As lideranças alertaram para o aumento de doenças, contaminação da água e destruição de territórios, cemitérios e modos de vida.
A APIB reforçou que não há segurança jurídica sem demarcação e proteção integral das Terras Indígenas. Segurança jurídica não é proteção para invasores, empreendimentos impostos ou interesses privados. Segurança é terra demarcada, protegida e livre de invasões. Nesse sentido, a APIB reafirmou sua rejeição à tese do Marco Temporal e a qualquer tentativa de relativizar os direitos originários dos povos indígenas, bem como destacou que o direito à Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) não pode ser tratada como mera formalidade ou mecanismo de legitimação de empreendimentos em territórios indígenas.
No campo climático, a APIB reafirmou que os territórios indígenas são centrais para a proteção da biodiversidade, para o enfrentamento da desertificação, para a preservação dos oceanos e para a estabilidade climática global. Não haverá solução para a crise climática sem demarcação e proteção dos territórios indígenas. Da mesma forma, não há transição energética justa com a abertura de novas fronteiras de exploração de petróleo, gás, carvão e mineração. Qualquer mapa do caminho global para além dos combustíveis fósseis deve partir do compromisso com o fim da expansão exploratória, da eliminação progressiva da produção e do consumo de combustíveis fósseis e da rejeição de novos empreendimentos que aprofundem a destruição dos territórios indígenas. A APIB reforçou que os povos indígenas não podem pagar o custo da transição energética por meio da repetição da lógica colonial de saque, espoliação e violência sobre seus territórios.
As lideranças indígenas também defenderam o fortalecimento do financiamento direto para os povos indígenas e de mecanismos como o Programa de Proteção de Terras Indígenas (PPTI), a Parceria de Líderes em Florestas e Clima (FCLP), o Fundo Floresta Tropical para Sempre (TFFF) e os fundos indígenas. As lideranças reiteraram que os recursos financeiros de fortalecimento devem corresponder a diversidade cultural, de região e biomas dos povos indígenas, tornando-se fundamental o acesso democratico para demarcação, proteção aos territórios e fortalecimento de suas organizações de base.
A APIB seguirá dialogando com as representações presentes, fortalecendo sua agenda de incidência internacional no âmbito da proteção dos direitos originários dos povos indígenas. Seguiremos construindo articulações conjuntas com embaixadas, organismos internacionais e parceiros estratégicos, com especial atenção para a defesa dos direitos territoriais, a rejeição de projetos legislativos anti-indígenas, a proteção das lideranças ameaçadas, a responsabilização de empresas violam os direitos constitucionais dos povos indígenas e o fortalecimento do financiamento direto.
Seguiremos mobilizados e em luta, porque nossos direitos seguem sendo inegociáveis, nossos territórios não são mercadoria e nosso futuro não está à venda. A resposta somos nós!
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), 10 de abril de 2026.