Brasília é colorida de urucum por 3 mil mulheres indígenas em protesto pelos seus direitos

Brasília é colorida de urucum por 3 mil mulheres indígenas em protesto pelos seus direitos

Texto por Luma Lessa e foto por Matheus Alves para Cobertura Colaborativa da Marcha das Mulheres Indígenas 

Sob o sol forte de Brasília, marcharam cerca de 3 mil mulheres indígenas na 1ª Marcha das Mulheres Indígenas nesta manhã de agosto (13/08). Desafiando as distâncias continentais do Brasil, mulheres de 113 povos coloriram de urucum as ruas do Distrito Federal. Sônia Guajajara denuncia que o presidente Jair Bolsonaro declarou guerra contra os povos indígenas ao dizer que não demarcará nenhum centímetro de terra a mais. “Eles não podem conosco, com a nossa força, com a diversidade. Vamos juntos defender a Mãe Terra”, diz a líder da APIB.

Outras lideranças invocam a força das mulheres presentes, dos ancestrais e dos encantados em protesto contra o governo atual. As delegações se organizaram com faixas, gritos e danças para exigir os direitos dos povos e das mulheres indígenas e o respeito à natureza. As mulheres demandam a demarcação dos território, a educação e a saúde diferenciada para os povos indígenas. Entre os gritos pela saúde, continuaram a pedir a saída de Silvia Nobre, atual secretária da Sesai que não os representa.

Mulheres também reivindicaram contra a mineração em resposta à proposta da PEC 187, projeto de regulamentação da exploração econômica das terras indígenas. Uma das lideranças questiona “que desenvolvimento é este que mata, que se pensa para o povo brasileiro sem o povo brasileiro”. Em frente ao Ministério do Meio Ambiente, lideranças reforçaram que os povos indígenas pensam não no presente, mas no futuro. O território é a fonte de vida dos povos indígenas e do planeta, fornecendo alimento ao campo e às cidades.

A Marcha é um momento histórico do protagonismo das mulheres indígenas. Elisa Pankararu defende que o corpo de cada mulher presente é território, resistência indígena e ancestral.

“Vai ser nós, mulheres indígenas, com nossos corpos, que vamos descolonizar a sociedade brasileira que tem matado a nossa história e a nossa memória”, diz Célia Xacriabá.

Por isso, defenderam a importância de lutar contra a violência contra mulher, contra a discriminação e o racismo. Em unificação das lutas, a Marcha das Mulheres Indígenas se reuniu ao ‘tsunami da educação’ em frente ao Congresso Nacional, em conjunto com estudantes, profissionais da educação, movimentos sociais e parlamentares. Em apelo pedem para os presentes “Onde estiverem, levem a causa indígena”.

Ao mesmo tempo, uma delegação de mulheres indígenas participou da Sessão Solene Câmara dos Deputados em homenagem às Margaridas. Como resultado de pressão, as indígenas conseguiram marcar outra Sessão especialmente para elas na parte da tarde desta terça-feira. O último dia de atividade será o apoio à Marcha das Margaridas na manhã do dia 14/08, seguida da Plenária de pautas conjuntas entre as duas Marchas na parte da tarde.

Des femmes indigènes provenant de plus de 100 peuples se réunissent pour manifester mardi

Des femmes indigènes provenant de plus de 100 peuples se réunissent pour manifester mardi

Par Luma Lessa, traduction par Juliette Borges, couverture collaborative de la Marche des femmes indigènes

Le jour s’est levé dimanche (08/11) avec les présentations culturelles de délégations de femmes provenant de plus de 100 peuples indigènes au Brésil. Environ 1 500 femmes indigènes se sont ensuite rassemblées pour les activités du Forum National des Femmes Indigènes. Sonia Guajajara a préparé le terrain en invitant les femmes de 21 États pour débattre sur le thème “Territoire : notre corps, notre esprit”. Les discussions ont porté sur la formulation d’exigences et de stratégies concrètes des femmes indigènes pour leur autonomisation, la violation des droits à la santé, l’éducation et la sécurité, le droit à la terre, les processus engagés pour la récupération de cette dernière et l’occupation des femmes indigènes en politique.

Dans l’après-midi, des invités ont discuter la mise en réseau des mouvements. Lors de la Table Ronde sur les Alliances Internationales, ont participé la députée fédérale Joênia Wapichana (Rede-RR), des femmes indigènes d’Amérique latine, des députées indigènes du Pérou et de l’Équateur ainsi qu’une représentante de l’ONU Femmes au Brésil. Une Table Ronde des Alliances Nationales s’est également déroulée, avec la participation de représentants de l’Articulation des Peuples Indigènes du Brésil (APIB), de la Marche des Marguerites (Marcha das Margaridas), des Femmes Noires (Mulheres Negras), de l’Articulation des Femmes Brésiliennes (AMB) et de la Coordination Nationale des Communautés Noires Rurales Quilombolas (CONAQ).

La journée du lundi 12/08 a été consacrée à la loi « SASI-SUS sur les femmes indigènes pour la défense de la santé des populations indigènes». La marche a quitté le campement de la Funarte en direction du Secrétariat Spécial à la Santé Indigène (Sesai). La première manifestation de la première Marche des Femmes Indigènes a envahi les rues de Brasilia pour protester contre la fin de la municipalisation du Sesai et exiger le départ immédiat de Silvia Nobre, la coordinatrice actuelle. En dépit de la tentative de la police militaire de bloquer l’entrée des indigènes dans le bâtiment du Secrétariat, les femmes ont réussi à entrer et à occuper l’espace. La journée s’est terminée par une audience d’une délégation de femmes à la Cour suprême (STF).

La marche se poursuivra demain, 13 août, partant du campement de la Funarte à 7 heures du matin vers l’esplanade des ministères. Elle se joindra à l’Acte National Contre le Démantèlement de l’Education Publique, prévue à 9 heures. Au même temps aura lieu une Session solennelle de la Chambre des Députés avec les Marguerites (Margaridas), femmes du champ et de la forêt. Dans l’après-midi se dérouleront des ateliers et des activités avec ces dernières dans le Parque da Cidade, suivies de l’ouverture de la marche des Marguerites à 19h au même endroit.

La Marche des femmes indigènes s’achève mercredi (14/08), en joignant ses forces à la Marche des Marguerites. La rencontre des marguerites et des indigènes aura lieu à la Funarte. L’attente est d’environ 100 mille personnes pour les marches du 13 et 14 août. La dernière activité du 14, prévue à 14h, sera une plénière pour l’approbation du Document Final sur le thème “Arroser les graines : l’avenir du Forum et de la Marche des Femmes indigènes”. Au bout du compte, les délégations regagneront leurs lieux d’origine avec une force renouvelée et des stratégies communes, partagées par les femmes indigènes de divers peuples et les paysannes au cours de ces journées intenses de mobilisation de la plus grande action féminine en Amérique latine.

Mulheres indígenas se reúnem com Ministro da Saúde e Secretária da SESAI

Mulheres indígenas se reúnem com Ministro da Saúde e Secretária da SESAI

Por Mahe Maia para a Marcha das Mulheres Indígenas

As centenas de mulheres indígenas que haviam ocupado hoje pela manhã a Secretaria Especial da Saúde Indígena – SESAI, em Brasília, em ato da I Marcha de Mulheres Indígenas, desocuparam o prédio após o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e a Coordenadora da SESAI, Silvia Nobre, concordarem em se reunir com 10 mulheres indígenas.

As indígenas expuseram ao Ministro suas queixas e reivindicações, especialmente a deficiência do sistema de saúde, assédio moral no atendimento à saúde, necessidade de melhoria do transporte, saneamento básico, fornecimento de medicamentos, além da necessidade de profissionais especializados.

Entre as falas das mulheres se repetiu a queixa de que não se sentem representadas pela Coordenadora da SESAI, em razão da ausência de diálogo com os povos indígenas. Segundo elas, os órgãos de representatividade estão postos para os índios, mas não com os índios.

As indígenas apresentaram igualmente um manifesto em defesa do direito ao atendimento diferenciado à saúde, que foi recebido pelo Ministro da Saúde. Confira trechos do manifesto:

“Estamos aqui também para manifestar a nossa profunda indignação e veemente repúdio aos propósitos do Governo Bolsonaro de desmontar todas as instituições e políticas que nos dizem respeito, e nesse momento, especialmente, a Política Nacional de Atendimento à Saúde Indígena. (…)

No entanto, o presidente Bolsonaro insiste de forma autoritária em suprimir esses direitos fundamentais adquiridos. É nessa direção que publicou no início do mês de agosto a Medida Provisória 890, visando instituir o Programa Médicos pelo Brasil, em substituição do Programa Mais Médicos, quando na verdade quer privatizar os serviços oferecidos pelo Sistema Unificado de Saúde (SUS), incluindo a Política de Atenção à Saúde Indígena.

Na respectiva Medida Provisória, o Governo Bolsonaro também propõe instituir o serviço social autônomo denominado Agência para o Desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde (ADAPS), uma absurda justificativa para abrir a atenção primária como mercado para o setor privado. (…)

É importante salientar que a proposta não foi discutida e apresentada nas instâncias de consulta de nossos povos. (…)

Diante desses fatos e ataques do governo Bolsonaro, nós mulheres indígenas, no dia de hoje, 12 de agosto, decidimos ocupar a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), reafirmando a posição de nossos povos contra qualquer perspectiva de municipalização ou privatização do atendimento à saúde indígena. Repudiamos, ainda, as tentativas de mercantilização dos nossos conhecimentos e saberes tradicionais. Somos contra toda e qualquer ameaça e negociação de todas as formas de vida. (…)”

O Ministro tentou abordar os pontos tratados pelas mulheres, e mostrou-se surpreso e concordante com a necessidade da melhoria de diálogo. Além disso, informou estar apurando eventuais fraudes nos órgãos públicos responsáveis pelo setor.

Embora o Ministro tenha concordado com a necessidade de estabelecer um maior diálogo com os povos indígenas, não se colocou à disposição para futuras reuniões, e sequer apresentou agenda a fim de tratar sobre pautas para resolução de conflitos. Por essa razão as mulheres indígenas se sentiram desmotivadas, mas informaram que seguem firmes na luta. Veja o vídeo das indígenas transmitindo suas impressões:

Des femmes indigènes occupent le Secrétariat Spécial à la Santé Indigène et exigent le départ de Silvia Nobre

Des femmes indigènes occupent le Secrétariat Spécial à la Santé Indigène et exigent le départ de Silvia Nobre

Par Andressa Santa Cruz, couverture collaborative de la Marche des femmes indigènes

Des centaines de femmes indigènes ont occupé aujourd’hui à Brasilia le bâtiment du Secrétariat Spécial à La Santé Indigène (SESAI), pour manifester contre le démantèlement du système de santé indigène et exiger le départ immédiat de la coordinatrice Silvia Nobre Wajãpi. Cette dernière a refusé de rencontrer les dirigeants et a quitté le bâtiment. sous les huées. “Silvia ne représente pas la majorité des femmes indigènes. Nous sommes venues ici dialoguer et n’avons pas été accueillies. Vous voyez la contradiction”, déclare Celia Xakriaba.

Depuis que Silvia Nobre a été nommée en avril par le gouvernement actuel, les politiques de santé indigène se sont affaiblies. Le retard dans le transfert des fonds, le démantèlement du programme Plus de Médecins (Mais Médicos) et de l’équipe de gestion ont eu un impact sur les villages dès le premier mois, c’est alors que des peuples de tout le pays ont commencé à se mobiliser contre cette détérioration.

En juillet, 115 personnes indigènes ont campé devant le bâtiment du SESAI (Brasilia) et ne sont parties qu’après deux semaines, le 22 juillet, lors d’une réunion tenue par le bureau du Ministère Public fédéral et la Fondation Nationale de l’Indien (Funai), où le ministère de la Santé et le SESAI ont signé un Accord d’Ajustement de Conduite (TAC), s’engageant ainsi à répondre aux demandes.

A voir ici l’heure d’entrée dans le bâtiment:

Selon Nyg Kaigang, venant de la région Sud du Brésil, l’un des objectifs est le renouvellement de l’organisme. «Nous allons lutter afin d’assurer un soin de santé spécifique basé sur l’alignement des connaissances de la médecine traditionnelle et sur notre façon de penser la guérison de notre corps. “

Mulheres indígenas de mais de 100 povos sairão em marcha nesta terça-feira

Mulheres indígenas de mais de 100 povos sairão em marcha nesta terça-feira

Texto por Luma Lessa e foto por Kamikia Kisedje para cobertura colaborativa das Marcha das Mulheres Indígenas.

O domingo (11/08) amanheceu com as apresentações culturais das delegações de mulheres de mais de 100 povos indígenas de todo Brasil. Em seguida, cerca de 1500 mulheres indígenas se reuniram para as atividades do Fórum Nacional de Mulheres Indígenas. Sônia Guajajara preparou a terra, convidando as mulheres de 21 estados para conversar sobre o tema: “Território: nosso corpo, nosso espírito”. As discussões abordaram a construção de demandas e estratégias concretas das mulheres indígenas para seu empoderamento, a violação dos direitos à saúde, educação e segurança, o direito à terra e processos de retomada e a ocupação das mulheres indígenas na política.

Pela tarde, mesas trouxeram convidadas para discutir a formação de redes entre movimentos. A Mesa de Alianças Internacionais contou com a participação de Joênia Wapichana, deputada federal (Rede-RR), de mulheres indígenas lideranças latino-americanas, deputadas indígenas do Peru e do Equador e uma representante da ONU Mulheres Brasil. Aconteceu também a Mesa das Alianças Nacionais, que contou com representantes da APIB, da Marcha das Margaridas, das Mulheres Negras, Articulação das Mulheres Brasileiras (AMB) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

O foco da segunda-feira (12/08) é o Ato “Mulheres Indígenas em defesa da saúde indígena SASI-SUS”. A marcha saiu da sede do acampamento na Funarte em direção à Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai). A primeira caminhada da I Marcha das Mulheres Indígenas ocupou as ruas de Brasília para protestar pelo fim da municipalização da Sesai e pela saída imediata de Silvia Nobre, atual coordenadora. Apesar da tentativa da Polícia Militar de barrar a entrada das indígenas ao prédio da Secretaria, as mulheres conseguiram entrar e ocupar o espaço. O dia termina com a participação de uma delegação de mulheres na audiência, marcada para ter início às 17h, no Supremo Tribunal Federal (STF).

A caminhada continua amanhã, dia 13 de agosto, com a saída às 7h da Marcha das Mulheres Indígenas do acampamento principal na Funarte em direção à Esplanada dos Ministérios. A Marcha se soma ao Ato Nacional Contra o Desmonte da Educação Pública, marcado para às 9h. No mesmo horário ocorrerá a Sessão Solene Câmara dos Deputados com as Margaridas. Para tarde, estão marcadas oficinas e atividades com as Margaridas no Parque da Cidade, seguida pela abertura da Marcha das Margaridas às 19h no mesmo local.

A Marcha das Mulheres Indígenas termina na quarta-feira (14/08), somando forças à Marcha das Margaridas em caminhada conjunta. O encontro das margaridas e das indígenas ocorrerá na Funarte. A expectativa é de cerca de 100 mil pessoas para as Marchas do dia 13 e 14 de agosto. A última atividade do dia, marcada para às 14h, será a Plenária para a aprovação do Documento Final com o tema “Regando sementes: o futuro do Fórum e da Marcha das Mulheres Indígenas”. Ao final delegações retornam aos seus locais de origem renovadas com as forças e estratégias compartilhadas entre mulheres indígenas de povos diversos e com as mulheres camponesas nesses intensos dias de mobilização da maior ação feminina da América Latina.

Mulheres Indígenas ocupam Sesai e pedem saída de Silvia Nobre

Mulheres Indígenas ocupam Sesai e pedem saída de Silvia Nobre

Por Andressa Santa Cruz para cobertura colaborativa da Marcha das Mulheres Indígenas

Centenas de mulheres indígenas ocuparam o prédio da Secretaria Especial da Saúde Indígena (SESAI) hoje, em Brasília, pedindo o fim do desmonte na saúde indígena e a saída imediata da coordenadora Silvia Nobre Wajãpi que não quis se reunir com as lideranças e saiu do prédio sob vaias. “Silvia não representa a maioria das mulheres indígenas. Viemos aqui para dialogar e não fomos recebidos. Isso mostra a contradição“, afirma Célia Xakriaba.

Desde que Silvia Nobre foi nomeada pelo atual governo em abril, as políticas de saúde indígena estão sendo enfraquecidas. O atraso no repasse de verbas, o desmonte do Programa Mais Médicos e o fim da equipe de gestão causou impacto nas aldeias logo no primeiro mês, foi quando povos de todo o país começaram a se mobilizar contra o sucateamento.

Em julho, 115 indígenas ficaram duas semanas acampados no prédio da SESAI e só saíram no dia 22, após uma reunião no mediada pelo Ministério Público Federal e pela Funai, em Brasília, onde o Ministério da Saúde e a SESAI assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) se comprometendo a atender as demandas.

Para Nyg Kaigang, da região sul do país, um dos objetivos é a revitalização do órgão, “vamos lutar para que se garanta um atendimento de saúde específica pautada no alinhamento dos conhecimentos da medicina tradicional, do modo de pensar a cura dos nossos corpos.”

Confira algumas fotos da ocupação:

Mulheres indígenas ocupam prédio da Sesai exigindo a saída imediata da coordenadora Silvia Nobre. Foto: Douglas Freitas / Cobertura Colaborativa

Mulheres indígenas ocupam prédio da Sesai exigindo a saída imediata da coordenadora Silvia Nobre. Foto: Douglas Freitas / Cobertura Colaborativa

Mulheres indígenas ocupam prédio da Sesai exigindo a saída imediata da coordenadora Silvia Nobre. Foto: Kamikia Kisedje / Cobertura Colaborativa

Mulheres indígenas ocupam prédio da Sesai exigindo a saída imediata da coordenadora Silvia Nobre. Foto: Lia Bianchini

Mulheres indígenas ocupam prédio da Sesai exigindo a saída imediata da coordenadora Silvia Nobre. Foto: Kamikia Kisedje / Cobertura Colaborativa

Mulheres Indígenas ocupam a Sesai. Foto: Kamikia Kisedje / Cobertura Colaborativa

Mulheres indígenas ocupam prédio da Sesai exigindo a saída imediata da coordenadora Silvia Nobre. Foto: Daniela Huberty / Cobertura Colaborativa

Do Rio Grande do Sul a Brasília: mulheres indígenas do sul do país chegam para a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas

Do Rio Grande do Sul a Brasília: mulheres indígenas do sul do país chegam para a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas

Mais de 40 mulheres indígenas representando 17 aldeias e Terras Indígenas dos povos Kaingang e Guarani chegam ao encontro inédito.

Às 7h de quinta-feira (08), um grupo de sete mulheres indígenas da Terra Indígena (TI) Por Fi Ga, localizada em São Leopoldo (RS), se preparava para embarcar no ônibus que, nas próximas horas, atravessaria os estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Goiânia para chegar à capital do país, no Distrito Federal. Logo, as sete indígenas, suas filhas e seus filhos ganhariam a companhia de mais 35 mulheres indígenas do sul do Brasil que foram somando-se ao longo do caminho nas cidades de Porto Alegre, Carazinho, Sarandi, Iraí (RS) e Chapecó (SC). Representando 17 aldeias e Terras Indígenas, o grupo é formado por mulheres indígenas dos povos Kaingang e Guarani.

A viagem de mais de 40 horas, apesar de cansativa, é estimulante: todas essas mulheres vão participar da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, encontro inédito que acontece até o dia 14 de agosto em Brasília. A estimativa é que a marcha reúna duas mil mulheres dos mais diferentes povos de todo o país. Com o tema “Território: nosso corpo, nosso espírito”, a proposta é realizar um grande encontro de mulheres indígenas com o objetivo de dar visibilidade às suas ações, discutindo questões inerentes às suas diversas realidades, reconhecendo e fortalecendo os seus protagonismos e capacidades na defesa e na garantia dos direitos humanos, em especial o cuidado com a mãe terra, o território, o corpo e o espírito.

Em meio a malas, colchonetes e os mais diversos utensílios, o grupo de mulheres indígenas que partiu rumo ao encontro é a primeira delegação a chegar no local onde será o evento. Enquanto organizam seu espaço de acampamento, afirmam que vieram para mostrar sua voz e o protagonismo das mulheres. “A marcha é importante para mostrar que a mulher indígena tem o mesmo potencial das mulheres de outras culturas e o mesmo potencial dos homens na luta pela igualdade de gênero. Vamos divulgar nossa cultura e nossas demandas”, afirmou Sueli Tomás, Kaingang e técnica em Enfermagem da TI Por Fi Ga. Como Sueli, Luana Kaingang, acadêmica de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), acredita que a marcha dará mais visibilidade às mulheres indígenas, ao mesmo tempo em que mostrará o fortalecimento dos povos indígenas. “Mostrar que as mulheres também estão na batalha e na luta para conseguir os nossos territórios”, completou.

Ir a Brasília lutar pelos direitos dos povos indígenas não é novidade para as indígenas Iracema e Talcira, dos povos Kaingang e Guarani respectivamente. Ambas já participaram de diversos eventos em prol da causa indígena na capital federal. Iracema afirma que esses encontros possibilitam a troca de conhecimento entre diferentes povos. “É importante para a mulher conhecer bem o sistema e compartilhar o conhecimento com as outras mulheres. Os homens dizem, às vezes, que estamos discriminando eles, mas eles também tem conhecimento para trocar com outros homens. O que queremos é ter voz e liberdade para isso”, disse orgulhosa ao lembrar que a militância vem de família: sua vó Candinha Fortes sempre lutou em prol das mulheres. Talcira saiu do município de Rio Grande (RS), sul do estado, para viajar. Ela acredita que é seu dever ir a Brasília dar apoio às parentes. “É um momento importante que as mulheres mostram seu talento e sua força”, destacou.

Luta por direitos é constante

Sueli lembra que as pessoas indígenas sempre estão lutando em busca de seus direitos, principalmente em momentos políticos como o que vivemos agora, de retrocessos e violência contra os povos originários. “Nada que ganhamos é de graça. Lutamos pela nossa sobrevivência e para não deixar morrer nossa cultura. E vamos seguir lutando, apesar de todas as dificuldades”, ressaltou. Um dos retrocessos em relação aos povos indígenas e que também será pauta durante os dias da Marcha das Mulheres Indígenas é a questão da saúde.

Kaingang da TI Serrinha, localizada em Ronda Alta (RS), Azelinda Inácio quer tratar, em Brasília, sobre o Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), um dos principais espaços de participação e controle social da política de assistência às comunidades. “A saúde está um caos e nos preocupamos porque somos mães e avós. Gostaríamos que abrisse um espaço para as mulheres participarem do encontro do Condisi para darmos a nossa opinião. Cadê as mulheres conselheiras e delegadas?”, questionou. A cacica da TI Faxinal, município de Água Santa (RS), Ângela Inácio Braga concorda. De acordo com ela, é preciso ter mais participação das mulheres nesses espaços. “A gestão deve ser compartilhada. Nós estamos na base e, por isso, sabemos o que acontece”, disse.

Apoie a Marcha

Foto: Daniela Huberty / Comin

A realização da Marcha das Mulheres Indígenas foi deliberada durante a Plenária das Mulheres realizada no Acampamento Terra Livre (ATL) em abril deste ano. Desde então, lideranças de todas as regiões do país iniciaram o processo de mobilização e captação de recursos para o evento. O encontro está sendo realizado com recursos próprios das mulheres indígenas, apoio de organizações parceiras e com doações arrecadadas através de uma vaquinha online. Ainda é possível contribuir através do link.

Além da Marcha das Mulheres Indígenas, que será realizada no dia 13 juntamente do Ato Nacional pela Educação, o encontro contará com o Fórum Nacional de Mulheres Indígenas, debates, palestras, seminários, plenárias, oficinas, cerimônias e noites culturais. No dia 14, as mulheres indígenas irão se somar à Marcha das Margaridas, ato que reúne mulheres do campo e da floresta, em uma grande manifestação nacional em prol dos direitos e protagonismo da mulher, a partir de uma visão de desenvolvimento sustentável e de justiça social.

“Negociar nosso território é negociar nossas vidas”, Célia Xakriabá durante fala no Senado Federal no Dia Internacional dos Povos Indígenas

“Negociar nosso território é negociar nossas vidas”, Célia Xakriabá durante fala no Senado Federal no Dia Internacional dos Povos Indígenas

No dia Internacional dos Povos Indígenas (09/ago), as lideranças Sônia Guajajara, Ana Patté, Cristiane Pankararu e Célia Xacriabá participaram de uma audiência pública no Senado Federal para debater a “Previdência e Trabalho” com foco na população indígena. O evento faz parte da programação da primeira Marcha das Mulheres Indígenas que começou hoje em Brasília e tem como tema “Território: nosso corpo, nosso espírito”.

“A agenda perigosa do presidente faz necessário audiências como essa, para falar e lutar pelos direitos constitucionais que foram duramente conquistados”, afirmou Sônia Guajajara, candidata a vice-presidência do Brasil pelo PSOL em 2018 e representante da Articulação dos Povos Indígenas (APIB) na região Norte. “Enquanto o governo não retomar a demarcação das terras indígenas, nós não vamos ceder, nem recuar. Não temos medo. São 519 anos de luta e resistência”.

A Constituição Federal de 1988 estabelece que a demarcação e a proteção é obrigação da União (art. 231). Mesmo assim, desde o seu primeiro dia como presidente do Brasil, Jair Bolsonaro tenta transferir a demarcação do território indígena para o Ministério da Agricultura. Em seis meses de governo, ele criou duas Medidas Provisórias e ambas foram barradas pelo Congresso Nacional (MP 870/2019) e pelo Supremo Tribunal Federal (MP 886/2019) que decidiram manter a demarcação das Terras Indígenas sob responsabilidade da Funai no Ministério da Justiça.

“Negociar nosso território é negociar nossas vidas. É um genocídio, porque nos mata coletivamente pela negação do nosso direito territorial”, afirmou Célia Xakriabá, liderança representante dos povos indígenas do Leste e Sudeste. Em nome da região Sul, Ana Patté reforçou que a presença no evento era principalmente para fortalecer a garantia ao direito territorial. “Porque sem território a gente não tem casa, não tem saúde, não tem educação, não tem segurança”. Ana Patté é do povo Xokleng e atualmente é assessora da Deputada Estadual Isa Penna (PSOL-SP) em uma parceria junto à APIB para levar mulheres indígenas à espaços estratégicos. A iniciativa ilustra um número crescente de lideranças femininas que passam a atuar também fora das aldeias, como Joênia Wapichana (REDE-RR), primeira mulher indígena eleita Deputada Federal que, durante o evento, participava de uma sessão em uma sala próxima, no Congresso Nacional, contra a mineração em território indígenas.

A primeira Marcha das Mulheres Indígenas surge dessa preocupação territorial aliada à organização política das mulheres indígenas Tsunami da Educação (13/ago) e a histórica Marcha das Margaridas (14/ago) que reunirá mais de 100 mil mulheres camponesas, indígenas e urbanas em Brasília na maior ação feminina da América Latina.

“Nova Previdência mata por inanição.”

Com a chegada dos portugueses em 1.500 no litoral nordestino, a ocupação humana predatória que cortou arvores, enxugou rios e disseminou a seca e pobreza onde antes era Mata Atlântica. Hoje, muitos indígenas no nordeste e de todo país impactados pelo desmatamento não conseguem sobreviver apenas da agricultura e dependem de reparos financeiros. Para Cristiane Pankararu, representante do Nordeste/Leste a “aposentadoria é uma renda que sustenta famílias inteiras e a nova reforma mata por inanição ao propor uma aposentaria de 400 reais”.

O Senador Paulo Paim (PT-RS), que solicitou a audiência popular frisou que as mulheres serão as mais impactadas pela nova reforma e parabenizou a atuação das quatro lideranças que dividiram a mesa com ele. “Ainda há esperança. O Congresso Nacional aprovou, mas nós ainda não. Estou conversando com uma quantidade expressiva de senadores que também estão do nosso lado”, afirmou se referindo a recente aprovação pela Câmara dos Deputados. Agora, a reforma que tramitará no Senado Federal.

Colabore com as caravanas para a Marcha das Mulheres Indígenas

Colabore com as caravanas para a Marcha das Mulheres Indígenas

De 09 à 14/08/19, acontecerá em Brasília, a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas com o tema “Território: nosso corpo, nosso espírito’’.

O encontro tem como proposta discutir com a sociedade a atual política genocida de Jair Bolsonaro para com os povos originários. Durante o acampamento Terra Livre 2019, mulheres silvícolas realizaram uma plenária onde ficou deliberada a realização da Marcha, com objetivo de colocar suas demandas e, assim dar visibilidade às principais pautas que as cercam. Para o encontro são esperadas 2.000 guerreiras que sairão de diversas regiões do Brasil. Algumas destas comitivas terão apoio das próprias comunidades indígenas, mas outras ainda necessitam de ajuda para chegar até o local. A colaboração pode ser tanto financeira (através de vakinhas online), quanto por doação de mantimentos como: cobertor, colchão, material de higiene pessoal, etc.

As vaquinhas online além de beneficiar a realização do evento, também ajudam as comissões que estão se organizando para chegar à capital federal. Mobilize-se! Ajude! Colabore!

As contribuições podem ser feitas através dos links:

Vakinha da Marcha das Mulheres Indígenas

Além da principal, tem várias vaquinhas individuais sendo realizadas também:

Ajude as Mulheres Indígenas de SP a irem para Brasília
Mulheres indígenas do Ceará rumo à Marcha Nacional
Mulheres Indígenas de Pernambuco Rumo à Marcha Nacional
Apoie a 1ª Marcha de Mulheres Indígenas
Marcha para as Mulheres Indígenas – Mulheres Shanenawa
Mulheres Indígenas na Marcha das Margaridas 2019
Mulheres Indígenas do DF na Marcha das Mulheres Indígenas
Arrecadação de fundos para I Marcha das Mulheres Indígenas

Quarta nota do Apina sobre invasão da Terra Indígena Wajãpi

Quarta nota do Apina sobre invasão da Terra Indígena Wajãpi

Os indígenas Wajãpi seguem atentos as movimentações ao redor de suas aldeias após as invasões e relatam em nota como foram os últimos dias com equipes da Funai que estão acompanhando os povos:

” Nós do Conselho das Aldeias Wajãpi informamos que representantes de nossas organizações acompanharam as equipes da Funai para a região do Mariry na manhã do dia 30 de julho de 2019. Uma equipe da Funai ficou na aldeia Karapijuty para aguardar a chegada de helicóptero que ia para exumar o corpo do Emyra Wajãpi, mas foi adiada essa operação para a próxima sexta-feira dia 02 de agosto. Nós acompanhamos a outra equipe que seguiu para a aldeia central Mariry para entrevistar testemunhas da aldeia Yvytõtõ que viram os invasores não-indígenas.

De tarde fizemos reunião com chefes e representantes da região do Mariry para explicar o trabalho com a Funai de registro de depoimentos e começamos as entrevistas. As testemunhas da aldeia Yvytõtõ, que fica próxima da aldeia Mariry, confirmaram que viram dois invasores armados no final da tarde do dia 26 de julho. Disseram que logo depois que viram, os moradores da aldeia Yvytõtõ mandaram duas pessoas para a aldeia Mariry informar sobre a presença dos invasores e essa informação foi repassada pela radiofonia para várias aldeias na nossa Terra Indígena Wajãpi.

Enquanto nós estávamos entrevistando nossos parentes na aldeia Mariry, fomos interrompidos por duas mulheres avisando que tinham acabado de ver um invasor que passou correndo beirando a casa em que estavam cozinhando. Os guerreiros da aldeia Mariry foram imediatamente atrás dele, mas não encontraram rastro.

Depois voltamos para nossa reunião e os guerreiros ficaram vigiando os caminhos ao redor da aldeia. No meio da reunião, dois agentes indígenas de saúde chegaram da aldeia Ytawa e informaram que tinham passado pela aldeia Komakawyry onde viram que animais de criação foram mortos e os objetos de uma casa estavam jogados. A família dessa aldeia tinha se mudado para a aldeia Ytawa com medo dos invasores. Um dos agentes de saúde disse que seu filho tinha ido até a aldeia Wyraury para avisar da presença de invasores e tinha falado que voltaria no dia 28 de julho, mas ainda não tinha voltado. Por isso ele disse que estava muito preocupado e iria atrás dele. Em seguida, eles saíram para a aldeia Ytawa.

Depois de alguns minutos, voltaram correndo dizendo que tinham achado pegadas do invasor na lama do caminho e também tinham encontrado um pássaro juruti morto. Eles estranharam porque esse juruti não tinha ferimentos e nós Wajãpi só matamos juruti com flecha. Por isso desconfiaram que o invasor tinha matado o juruti com arapuca. Então eles levaram nossa equipe para ver as pegadas, mas não seguimos os rastros porque já estava anoitecendo. As mulheres que tinham visto o invasor correndo mais cedo falaram que ele tinha ido na direção desse caminho. Conseguimos filmar e tirar fotos de uma pegada de sapato fechado, que nós não usamos nos nossos caminhos. Nós Wajãpi sabemos muito bem ler pegadas porque somos caçadores e todos concordaram que aquele rastro é de um invasor.

No dia 31 de manhã, nós fomos para a aldeia Yvytõtõ com o representante da Funai para fazer a reconstituição dos depoimentos com as testemunhas. Nós filmamos quando mostraram os lugares onde viram os invasores no dia 26 e os rastros de caminhos que eles fizeram na mata. As mulheres disseram que avistaram dois invasores no final da tarde e que eles estavam armados: um negro alto e outro mais baixo de cabelo encaracolado. Falaram que vestiam roupas

parecidas com as do exército. Falaram que de noite os invasores voltaram em quatro pessoas e passaram algumas horas em casas desabitadas da aldeia. Nossos parentes falaram que eles se comunicavam com sinais e usavam lanterna, os cachorros latiam muito. As mulheres fugiram para a roça, estavam com medo de que matassem todas as famílias. Os homens ficaram em uma casa distante observando a movimentação dos invasores, eles estavam muito preocupados e não conseguiram dormir. Aproximadamente às 4 horas da manhã os invasores não-indígenas se comunicaram entre si e foram embora.

Quando amanheceu no dia 27 de julho, nossos parentes abandonaram a aldeia Yvytõtõ e foram para a aldeia Kanikani para se juntar com outras famílias. Até agora algumas comunidades da região do Mariry estão deixando suas aldeias para se juntar com outras para se protegerem e as mulheres estão com medo de ir para as roças. Nossos guerreiros estão fazendo equipes para buscar rastros dos invasores e por isso não estão saindo para caçar. Isso está prejudicando muito a nossa vida, por isso nós precisamos urgente da presença permanente da Funai na aldeia central do Mariry e que seja feita investigação com mais tempo de permanência da Polícia Federal ou do Exército nesta região.

Todos registros de fotos e vídeos que fizemos estão com a equipe da Funai e também vamos levar cópia até o Ministério Público Federal no Amapá. ”

Posto Aramirã – Terra Indígena Wajãpi, 1o de agosto de 2019.